Entrevista com o cardiologista Schariff Moysés

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Jovem vive mais de um ano sem um coração em seu corpo
18/08/2016
samp

 “É preciso amar a profissão, atuar de acordo com a sua vocação”

Médico completa cinco décadas de carreira e celebra sucesso de técnicas pioneiras no tratamento de doenças do coração

Natural de Vitória, o cardiologista Schariff Moysés trouxe para o Estado técnicas pioneiras que salvaram vidas e se tornaram referência nacional no tratamento de doenças cardiovasculares. Ao completar 50 anos de carreira, o médico fala sobre o seu ponto de vista em relação à profissão, o cenário atual dos médicos no Estado, os fatores que podem desencadear doenças do coração, as cirurgias, e muito mais.

Em que momento descobriu sua vocação para a medicina?

O desejo de me tornar médico surgiu aos 13 anos, quando passei a reparar a casa de saúde do doutor Dório Silva funcionando, na Avenida Capixaba, em Vitória. Era o ano de 1952. Naquele momento me decidi pela medicina. Como não existia escola de medicina em Vitória, o meu pai me encaminhou para o Rio de Janeiro. Fiz o que hoje é o ensino médio no tradicional Colégio Andrews e depois a minha graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro, que na ocasião era a Faculdade Nacional de Medicina.

O número de médicos disponíveis é suficiente para atender a população capixaba? O que pode melhorar?

Hoje, no Espírito Santo, temos 1,9 médico para cada mil habitantes. A Organização Mundial de Saúde preconiza em torno de 1,8 para cada mil pessoas. Então, o Estado está com mão de obra capacitada em bom número. Quando começa a sua carreira, o médico tem duas situações: ou vai para a medicina privada e fica lá; ou atende pacientes no Sistema Único de Saúde (SUS). Fala-se muito na carência de médicos nas periferias do país, mas para levar os profissionais para lá, faz-se necessária uma política de valorização. O médico poderia ganhar o dobro do seu piso salarial, que

atualmente é em torno de R$ 11 mil. Na minha opinião, ele deveria receber R$ 22 mil, mas ter dedicação exclusiva: o médico não poderia fazer nada além do seu serviço. Se o médico for para a periferia, ele possivelmente levará a sua família, e talvez no futuro ele crie raízes na região.

Como vê hoje a oferta de cursos de medicina?

Na época em que me formei, a situação era diferente. Se antes não havia curso, hoje temos excesso de médicos em Vitória. Esse aumento dos cursos é benéfico, já que precisamos de mais médicos nos pontos mais distantes. Mas é preciso pensar nas condições que esses médicos formados estão encontrando ao chegar ao mercado de trabalho. O salário precisa ser compatível com a sua função para a sociedade.

Em abril é comemorado o Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão Arterial. Segundo dados estatísticos publicados recentemente, cerca de 23% da população brasileira é hipertensa. Como saber a hora de procurar um médico?

A hipertensão é um dos fatores de risco quando se fala em doenças cardiovasculares. Sabemos que 43% dos pacientes que vêm a óbito têm as suas mortes ligadas a doenças do aparelho cardiovascular. E entre essas doenças, as principais são cardiopatia isquêmica obstrutiva e acidente vascular cerebral (AVC). É preciso fazer anualmente um check-up, sobretudo para quem tem mais de 30 anos. Mas eu acho que todos devem fazer uma avaliação cardiológica, no mínimo um eletrocardiograma e um exame clínico desde que nasce. Existem casos de hipertensão arterial em crianças de 1 ou 2 anos de idade, embora isso possa ser detectado na vida intra-uterina atualmente.

Existe, no seu ponto de vista, uma orientação sobre hipertensão? A população é bem informada sobre esse problema?

É uma questão que pode ser melhorada, mas temos trabalhado muito para disseminar informações sobre doenças cardiovasculares. É um trabalho dirigido e contínuo, com campanhas, entrevistas concedidas a veículos da mídia, orientação nos consultórios, entre outras ações.

Qual é a importância de se monitorar constantemente a hipertensão arterial?

Desde que a pessoa não seja hipertensa, não é preciso se criar um terror a esse respeito. O check-up de ano em ano é suficiente para essas pessoas. Obviamente, quem tem o problema precisa de acompanhamento de um especialista.

 

Desde a sua formatura, em 1965, o que apontaria como grandes avanços na cardiologia em termos de tecnologia?

O grande avanço na parte da cardiologia foi a prevenção nas doenças do coração, com medicamentos mais potentes, de qualidade e de fácil acesso, além, claro, da tecnologia aplicada no tratamento operatório. A cirurgia da revascularização do miocárdio, por exemplo, colaborou muito para o tratamento médico. São procedimentos menos invasivos e mais eficazes. O tempo de recuperação é muito mais rápido. Enquanto nos anos 1960 a recuperação de cirurgias levava de 15 a 20 dias, hoje isso acontece em três dias.

Como era a estrutura da área de cardiologia em Vitória quando o senhor retornou ao Estado, em relação ao que se via em centros como São Paulo e Rio?

Na época, ainda não era possível contar com tantos medicamentos como hoje. A estrutura de Vitória estava aquém das de outras capitais. Nós trouxemos para a cidade algo moderno e modificamos o aporte aos pacientes. Aconteceu uma revolução no tratamento das doenças do coração.

Durante a sua carreira, o senhor esteve presente na realização de técnicas pioneiras no Espírito Santo. Poderia falar sobre elas?

A primeira cirurgia de coração feita no Espírito Santo foi uma troca de válvula mitral, que realizamos em 16 de janeiro de 1971. Em 2009, foi a vez da videocirurgia cardíaca, uma técnica pioneira e que tem como diferencial o corte pequeno em relação à cirurgia convencional. E finalmente, em 2011, veio o suporte ventricular. E temos um serviço de cirurgia pediátrica montado no Hospital Estadual Infantil e Maternidade de Vila Velha (Himaba). São experiências que viraram referência para o Brasil inteiro. Hoje já são mais de 25 mil pessoas operadas com sucesso no Estado. A qualidade de vida aumentou no país, as pessoas estão vivendo mais. O nosso desejo é aumentar ainda mais essa expectativa de vida, e para isso vamos sempre trabalhar em cima de prevenção das doenças do coração. Prevenção é a palavra de ordem.

Como enxerga a Saúde no Espírito Santo? Os pacientes encontram no Estado tratamento para doenças de alta complexidade?

Sim. O Estado conta hoje com uma estrutura capaz de promover o tratamento das mais diversas doenças e possui muitos profissionais altamente qualificados, que atendem os pacientes com eficácia e respeito. A questão que precisa ser observada, e que vale a pena que todos se mobilizem,

é que os recursos deveriam ser muitos maiores. Pagamos um grande número de impostos para o Governo Federal e temos de retorno uma parte ínfima. Com mais dinheiro, teríamos condições ainda melhores. Mas o capixaba tem sim um bom atendimento, de forma geral.

Quais os impactos do sobrepeso, do sedentarismo e do tabagismo para o coração?

Os três são perigosos. O cigarro, por exemplo, é um veneno para o coração do fumante, e triplica o risco de um infarto do miocárdio em relação a pessoas que nunca fumaram. O sedentarismo é outro que causa preocupação e aumenta a chance de ter doenças do coração. Já o sobrepeso é uma doença mundial, tanto que os planos de saúde têm ações dirigidas para esse mal. São fatores que têm impactos negativos na vida de qualquer um e devem ser tratados. Hoje são fundamentais a prática de exercícios físicos e a busca por bons hábitos. Alimentar-se bem, dormir bem, tudo isso faz a diferença para o coração e para todo o corpo.

Olhando para trás, qual é a avaliação que faz dos seus 50 anos de carreira?

Sou um profissional feliz por ter feito tanto, mas ciente que ainda tenho muito pela frente. As coisas mudaram muito nesses 50 anos, mas o amor que a medicina demanda de seus profissionais permanece o mesmo. É preciso amar a profissão, atuar de acordo com a sua vocação.

Quero seguir defendendo uma melhor estrutura e condições para os médicos de nosso Estado. Não pode faltar nunca o respeito pelo juramento que cada médico faz no momento de sua formatura. E esse respeito tem me acompanhado por cinco décadas de dedicação.

Fontehttp://www.samp.com.br/es/entrevista-com-o-cardiologista-schariff-moyses/

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